quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A Executiva Bem Sucedida

FOI TUDO MUITO RáPIDO. A EXECUTIVA BEM-SUCEDIDA SENTIU UMA   PONTADA
NO PEITO, VACILOU, CAMBALEOU.

DEU UM GEMIDO E APAGOU.

Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso   portal.
 Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas. Todas
vestindo   cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem
entender bem o que   estava acontecendo, a executiva bem-sucedida
abordou um dos passantes:
 - Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório,
porque tenho   um encontro importantíssimo. Aliás, acho que fui
trazida para cá por engano,   porque meu convênio médico é classe
A, e isto aqui está me parecendo mais um   pronto-socorro. Onde é
que nós estamos?
 - No céu.
    - No céu?...
 - É.
 - Tipo assim... O céu, CÉU...! Aquele com querubins voando e
coisas do   gênero?
 - Certamente. Aqui todos viveram em estado de gozo permanente.
 Apesar das óbvias evidências nenhuma poluição, todo mundo
sorrindo, ninguém   usando telefone celular, a executiva bem-sucedida
custou um pouco a admitir   que houvesse mesmo apitado na curva.
 Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das
infalíveis   técnicas avançadas de negociação, de que aquela
situação era inaceitável.   Porque, ponderou, dali a uma semana ela
iria receber o bônus anual, além de   estar fortemente cotada para
assumir a posição de presidente do conselho de   administração da
empresa.
 E foi aí que o interlocutor sugeriu:
 - Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
 - É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?


- NãO, NãO. BASTA ESTALAR OS DEDOS E ELE   APARECE.

- ASSIM? (...)

- POIS NãO?
 A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua frente,
imponente, segurando   uma chave que mais parecia um martelo, estava o
próprio Pedro.
 Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para
situações   inesperadas e reagiu rapidinho:
 - Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva
bem-sucedida   e...
 - Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?
 - Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo
'executiva'?
 - Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo.
 Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima
autoridade   ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em
modernas técnicas de   gestão empresarial. Logo, com seu brilhante
currículo tecnocrático, a   executiva poderia rapidamente assumir
uma posição hierárquica, por assim   dizer, celestial ali na
organização.
 - Sabe meu caro Pedro, se você me permite, eu gostaria de lhe
fazer uma   proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo
papo e andando a   toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes
oportunidades para dar um   upgrade na produtividade sistêmica.
 - É mesmo?
 - Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo,
não vejo   ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é
quem aqui, e quem faz o   quê?
 - Ah, não sabemos.
 - Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão
gera   desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma
anarquia. Mas nós   dois podemos consertar tudo isso rapidinho
implementando um simples programa   de targets individuais e
avaliação de performance.
 - Que interessante...
 - É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma
hierarquização e um   organograma funcional, nada que dinâmicas de
grupo e avaliações de perfis   psicológicos não consigam resolver.

 -!!!...???...!!!...???...!!!
 - Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos
ajudar a definir   as estratégias operacionais e estabeleceríamos
algumas metas factíveis de   leverage, maximizando, dessa forma, o
retorno do investimento do Grande   Acionista... Ele existe certo?
 - Sobre todas as coisas.
 - Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing
progressivo,   encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de
procedimento, definir o   marketing mix e investir no desenvolvimento
de produtos alternativos de alto   valor agregado. O mercado
telestérico, por exemplo, me parece extremamente   atrativo.
 - Incrível!
 - É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que
nomear um board   de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração
atraente, é claro. Coisa   assim de salário de seis dígitos e todos
os fringe benefits e mordomias de   praxe. Porque, agora falando de
colega para colega, tenho certeza de que você   vai concordar comigo,
Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em   um Turnaround
radical.
 - Impressionante!
 - Isso significa que podemos partir para a implementação?
 - Não. Significa que você terá um futuro brilhante... Se for
trabalhar com o   nosso concorrente. Porque você acaba de descrever,
exatamente, como funciona   o Inferno...
 Max Gehringer
 (Revista Exame)

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